
Por: Vanderlei de Lima, eremita de Charles de Foucauld, é o tradutor e organizador da coleção Monaquismo Antigo
A Editora Benedictus vem publicando, em sete volumes, a coleção Monaquismo Antigo. Acaba de sair o volume II. Escrito por São Jerônimo († 420), traz três belas vidas santas: a de São Paulo de Tebas, a de São Malco e a de Santo Hilarião. Conheçamo-las.
O leitor atento nota que cada uma das Vidas deixa, conforme afamados estudiosos, transparecer um momento especial da experiência monástica do próprio Jerônimo (cf. p. 89 – nota 99). Ele projeta, por assim dizer, nos três biografados um pouco das suas alegrias e inquietações. Isso é belo, dado que o autor se coloca – no estilo hagiográfico da época – em forte diálogo com as personagens de uma história real, mas feita catequese (cf. p. 100 – nota 135). Assim, na Vida de São Paulo de Tebas, aparece um eremita radical que é tido como modelo de solidão em sua ascética vida oculta ao mundo. Na Vida de São Malco, um monge cenobita tem de lidar com uma mulher [Como não se lembrar de Paula, a nobre romana que, próxima de Jerônimo, dirige um mosteiro?], não muito bem vista no monaquismo antigo. Na Vida de Santo Hilarião, voltamos a perceber um eremita que se vê às voltas com os problemas de seus semelhantes, os quais ele – como que traindo o aspirado isolamento escolhido – precisa ajudar a resolver. São, enfim, as tensões do nosso dia a dia, ainda que tenhamos de escolher entre duas coisas boas. Dito isso, observemos de perto algumas breves passagens das três obras que, reunidas em um só volume e com oportuna introdução a cada uma, visam oferecer farto material de reflexão ao ser humano do século XXI.
Na Vida de São Paulo de Tebas, São Jerônimo narra o encontro de Santo Antão (cujas vida e obras são apresentadas no volume I da coleção Monaquismo Antigo) com São Paulo de Tebas. Logo depois do ósculo santo entre ambos, Paulo começa a falar para Antão: “Aqui vês, irmão, aquele que, com tanto esforço, procuraste com os membros carcomidos pela idade e coberto de cabelos brancos. Aqui vês o homem que, em breve, será terra [...]. E, enquanto falavam destas coisas, viram, de repente, um corvo que tinha pousado sobre um galho de árvore e, descendo dali com suave voo, deixou-lhes um pão inteiro, ante seus olhares espantados, e se foi. Então, Paulo disse: ‘Veja, Antão, o Senhor nos enviou a ceia, porque é verdadeiramente bondoso e misericordioso. Faz sessenta anos que me envia, todos os dias, meio pão; mas agora, porque tu vieste, Cristo duplicou a porção aos seus soldados’” (p. 53).
Já São Malco, monge cenobita, abandona o seu mosteiro para ver a família. No trajeto, é capturado por sarracenos. Obrigado, depois, a contrair matrimônio com uma mulher já casada, finge aceitá-la por esposa, mas não quebra seu voto de castidade. Diz Malco: “Fiquei espantado, não o nego; e, admirando a virtude daquela mulher, tanto mais amei nela a companheira. Nunca vi seu corpo nu, nunca toquei sua carne, temendo perder, em tempo de paz, aquilo que tinha salvado na batalha” (p. 80). É, em suma, a lembrança daquilo que diz São Paulo: Ninguém é tentado além de suas forças (cf. 1Cor 10,13).
Em Santo Hilarião, Jerônimo apresenta, de início, um menino que, longe dos convites mundanos, quer seguir a Cristo. Por isso, “não se deleitava nas paixões do circo, nem no sangue da arena, nem na luxúria do teatro; pelo contrário, todo o seu anseio era participar das assembleias da Igreja” (pp. 107-108). Aos quinze anos, à moda de Santo Antão, doou todos os seus bens aos pobres e abraçou a austera vida monástica. Nela, de modo direto ou indireto, enfrentou os ataques do demônio e também realizou milagres. Certa vez, fez com que desamarrassem um homem forte e valente possuído pelo maligno, mas este não lhe fez mal. Apenas se prostrou por terra e lambeu o pé do santo (cf. p. 119).
Eis, pois, o volume II da rica coleção Monaquismo Antigo!
Por: Vanderlei de Lima, eremita de Charles de Foucauld, é o tradutor e organizador da coleção Monaquismo Antigo
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