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ARTIGO DA SEMANA: Falar ou orar em línguas?

Por: Vanderlei de Lima é eremita de Charles de Foucauld.
schedule sexta, 26/06/2026 as 12:37

                 Há quem pergunte sobre a chamada fala ou oração em línguas, de acordo com a fé católica. Este artigo oferece dados sobre o tema.

            Logo de início, importa anotar que a “oração é a elevação da alma a Deus ou o pedido a Deus dos bens convenientes” (Catecismo da Igreja Católica n. 2559). A fala é de São João Damasceno († 749), padre e doutor da Igreja, que, a seu modo, resume o Pai-Nosso, pois na primeira parte da Oração dominical nos elevamos em louvor ao Senhor e na segunda pedimos os bens necessários para o nosso dia a dia.

            Dito isso, pensemos no falar (não orar) em línguas como um carisma ou dom de Deus dado sem mérito nenhum por parte do fiel para a edificação da comunidade; nunca para benefício próprio. Daí alguns chamarem esse fenômeno de glossolalia (falar, à luz do Espírito Santo, com entusiasmo, uma língua estranha sem nunca tê-la estudado), que São Paulo comenta longamente em 1Cor 14. E que diz ele, em suma? – Diz que só se deve falar em línguas quando há também alguém para interpretar o que o outro está falando. E tudo de um modo muito disciplinado. Ora, isso é muito lógico. Afinal, se é um carisma para o bem da comunidade, em que o todo se beneficiará se não entende o que ali é falado? Mais ainda: o mesmo Deus que deu o dom de línguas há de ofertar também o dom da interpretação daquelas línguas.

            No entanto, um fato curioso chama a atenção do estudioso. Trata-se do seguinte: nos séculos posteriores a São Paulo, o dom de línguas, embora citado por Santo Irineu († 202) e Tertuliano († 220), foi desaparecendo até praticamente se extinguir. Daí São João Crisóstomo († 407), ao comentar 1Cor 12,1s, dizer: “Esta passagem é totalmente obscura; tal dificuldade provém do fato de que ignoramos o que ocorria outrora [ou seja, o dom de línguas – Nota nossa] e não mais acontece em nossos dias” (In Epist 1 ad Cor. Homilia 29,1). Também Santo Agostinho de Hipona († 430) diz: “Quem poderia pensar hoje que a imposição das mãos provoque o dom das línguas?” (De Baptismo III 16,21). No século XVI, voltou a se falar de uma como que embriaguez espiritual (cf. At 2,13-15), conforme se depreende destes dizeres de Santa Teresa d’Ávila: “Pronunciam-se, então, muitas palavras para o louvor de Deus, mas sem ordem, a menos que Deus queira aí colocar ordem; a mente humana por si não é capaz de fazê-lo. A alma desejaria proclamar bem alto a glória de Deus. Ela fica fora de si mesma no mais suave delírio... Ela quisera ser, por inteiro, línguas para louvar o Senhor” (Vida, cap. 16,3-4). Todavia, os teólogos viram esse relato como algo muito íntimo e raro em alguns místicos.

            No século XX, com a Renovação Carismática Católica, tornou-se a valorizar o dom das línguas, mesmo sem intérprete. Na oração (não na fala apenas), seria apenas uma efusão entusiástica no ânimo de quem ora. Por essa razão, Dom Estêvão Bettencourt, OSB, pontua o seguinte: “Tal explicação pode ser aceita. São Paulo observaria que, em tais circunstâncias, o orante deveria rezar a sós, em casa” (Curso sobre a graça. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2000, p. 105 – Nossa principal fonte). O Documento 53 da CNBB, que versa sobre a RCC, preceitua: “Como é difícil discernir na prática, entre inspiração do Espírito Santo e os apelos do animador do grupo de oração, não se incentive a chamada oração em línguas e nunca se fale em línguas sem que haja intérprete” (n. 62).

            Ante tudo isso, lembremo-nos de que a edificação da comunidade nem sempre se faz por meio de fenômenos portentosos (falar ou orar em línguas), mas pela via do amor, como ensina São Paulo em 1Cor 13. Sejamos, pois, cautelosos e distingamos o que vem de Deus e o que é fruto do próprio psiquismo humano, sempre assaz prodigioso, sobretudo quando, no fenômeno natural da xenoglossia, alguém passa a falar línguas estranhas.

 

            POR: Vanderlei de Lima é eremita de Charles de Foucauld

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