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Artigo da Semana: Os fiéis católicos maronitas

schedule sábado, 31/01/2026 as 07:24

Conhecer bem a Igreja Católica é, muitas vezes, desbravar um universo de ritos que o olhar ocidental nem sempre alcança. Assim, dentre as diversas tradições que compõem a túnica inconsútil de Cristo (cf. 9,23-24), os fiéis católicos maronitas têm um lugar de destaque.

Com efeito, à diferença de outras comunidades orientais que retornaram à comunhão com Roma ao longo dos séculos, sobretudo após o grande cisma de 1054, os maronitas orgulham-se de uma fidelidade ininterrupta à Sé de Pedro, mantendo-se como um baluarte da cristandade no coração do Oriente Médio, especialmente no Líbano.

A origem dessa comunidade remonta ao século V e à figura de São Maron (daí o nome maronita), um eremita que buscava a Deus na solidão das montanhas da Síria. Seus discípulos, herdeiros de uma espiritualidade marcada pela ascese rigorosa e pelo profundo amor às Escrituras, formaram mosteiros que se tornaram o centro da vida social e religiosa da região. Desde o Concílio de Calcedônia, em 451, os maronitas reafirmaram sua ortodoxia (reta fé) ao professar as duas naturezas de Cristo – a divina e a humana –, distanciando-se das heresias que fragmentavam o Oriente. Essa clareza doutrinária custou caro: perseguições constantes forçaram o êxodo da Síria para as montanhas escarpadas do Líbano, que se tornariam sua pátria neste mundo.

Um dos aspectos mais fascinantes da tradição maronita é a sua liturgia. Pertencente ao grupo antioqueno ocidental, ela conserva uma simplicidade poética que remete aos primeiros séculos. Um detalhe que emociona qualquer fiel é o uso do aramaico, a língua de Jesus, nas palavras da consagração durante a Missa. Pode-se dizer que está prática constitui um elo vivo com a história da salvação. Além disso, a disciplina maronita preserva costumes disciplinares como o celibato opcional para diáconos e sacerdotes – embora os bispos sejam sempre escolhidos entre os celibatários –, uma prática considerada legítima e útil pela Igreja Universal (cf. Catecismo da Igreja Católica n. 1579-1580; Urbano Zilles. Reflexões teológicas e pastorais. Porto Alegre: EST, 2025, pp. 69-72).

A história maronita é, fundamentalmente, uma história de martírio. Da chacina de 350 monges no século VI às perseguições sob o domínio de diversos impérios e grupos radicais, o sangue maronita regou a terra do Líbano. Essa resiliência não gerou apenas resistência militar, mas uma cultura de cooperação e educação. Foram os maronitas que estabeleceram a primeira tipografia no Oriente Médio e desempenharam um papel crucial na formação do Líbano independente, servindo de refúgio e ponte para que outras comunidades orientais retornassem à comunhão com Roma.

Tal permuta entre o Oriente e o Ocidente também enriqueceu a espiritualidade maronita com devoções latinas, como o Rosário e a Via-Sacra, criando uma síntese harmoniosa que se expandiu pelo mundo. No Brasil, essa presença é vibrante e não se restringe apenas aos descendentes de libaneses; qualquer fiel pode abraçar o rito e até mesmo o sacerdócio na Igreja maronita, desde que siga os requisitos eclesiásticos exigidos.
Ao olharmos para figuras como São Charbel Makhlouf, o primeiro santo oriental canonizado – cuja vida cheia de milagres, muito bem narrada pelo Pe. Ángel Peña, OAR, foi por nós traduzida para o português e publicada pela Cultor de Livros – percebemos o quanto a herança de São Maron é um tesouro para toda a Igreja. Em um mundo onde a fé muitas vezes é testada pela indiferença ou pela perseguição, o exemplo maronita de fidelidade inabalável a Roma, regada pelo sacrifício e pela beleza litúrgica, convida-nos a redescobrir a profundidade das nossas próprias raízes cristãs.
Em suma, admirar os maronitas é maravilhar-se com a capacidade humana de manter a esperança viva mesmo nos recônditos mais profundas da história.

Por: Vanderlei de Lima é eremita de Charles de Foucauld.

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