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Na Bíblia: monogamia ou poligamia?

Vanderlei de Lima é graduado em Filosofia (PUC-Campinas) e especialista em Teologia pela Faculdade Iguaçu-Capanema..
schedule sexta, 23/10/2026 as 08:27

Há, inclusive entre católicos, os que almejam – de modo errôneo – validar a bigamia (um segundo casamento apesar de o primeiro ser válido) ou a poligamia (a manutenção de vários cônjuges ao mesmo tempo) fundados em passagens do Antigo Testamento. Comentemos o assunto.

O primeiro registro explícito de poligamia na Bíblia encontra-se em Gn 4,19, atribuído a Lamec, descendente de Caim, que tomou para si duas esposas: Ada e Sela. A partir dos patriarcas, o costume ganhou contornos funcionais e familiares. Abraão, por iniciativa de Sara e buscando a promessa de um herdeiro, toma a serva Agar como concubina e, após a morte de Sara, casa-se com Cetura (cf. Gn 16,1-3; 25,1). Seu neto Jacó vivencia uma estrutura poligâmica causada por um engano contratual promovido por Labão, seu sogro: após casar-se com Lia e Raquel, Jacó acolhe também as servas Bala e Zelfa, gerando os patriarcas das doze tribos de Israel (cf. Gn 29,21-30).

Na era dos juízes e da monarquia, a poligamia passou a desempenhar papel central na consolidação de alianças políticas e no status de liderança. Elcana, pai do profeta Samuel, mantinha duas esposas, Ana e Fenena (cf. 1Sm 1,1-2), em um cenário de profundas tensões domésticas. Entre os juízes, Gedeão destacou-se por possuir muitas mulheres e concubinas (cf. Jz 8,30). Contudo, é no período monárquico que a prática atinge o seu ápice. O rei Davi acumulou esposas e concubinas em Hebrom e Jerusalém, incluindo Micol, Aquinoam, Abigail e Maaca (cf. 1Sm 25,42-43; 2Sm 3,2-5). Salomão, seu filho e sucessor, levou esse costume às últimas consequências, mantendo o maior harém do relato bíblico: 700 esposas de linhagem nobre e mais 300 concubinas (cf. 1Rs 11,3). Essa multiplicação excessiva culminou no desvio espiritual do monarca em sua velhice, aclarando os perigos apontados pelo texto sagrado. Foi punido por sua libertinagem (cf. 1Rs 11,1-13). Outros soberanos, como Roboão (cf. 2Cr 11,21-23) e Acab (cf. 2Rs 10,1-2,6-7), mantiveram conduta idêntica.

Dito isso, notemos que, longe de instituir ou incentivar a poligamia, a legislação contida no Pentateuco atuou apenas de modo regulatório e protetivo. Reconhecendo a tolerância social dessa prática na Antiguidade – muitas vezes associada à proteção de viúvas, órfãos ou contingentes populacionais reduzidos por guerras –, a Lei de Moisés estabeleceu limites jurídicos para evitar abusos e desamparos: Ex 21,10-11 determina expressamente que, ao tomar uma segunda mulher, o homem não poderá reduzir o mantimento, o vestuário nem os direitos conjugais da primeira; Dt 21,15-17 resguarda os direitos do filho primogênito em questões de herança, proibindo que o pai beneficie o filho da esposa favorita em detrimento do primogênito da esposa menos amada; e Dt 17,17 que, de modo explícito, desestimula os reis de Israel a multiplicarem suas mulheres para que, com isso, seus corações não se desviem.

Que dizer? Importa notar que o verdadeiro cristão lê o Antigo Testamento à luz do Novo Testamento. Ora, aí o Senhor ensina, em Mt 19,3-8, que a poligamia foi tolerada (mas não aprovada), no Antigo Testamento, somente devido à dureza de coração dos israelitas. O Criador estabeleceu, na origem de tudo, que o homem deixe seus pais e una-se à mulher a fim de já não serem dois, mas uma só carne (cf. Gn 2,24). Esse modo monogâmico de viver o matrimônio aparece também em Gn 1-3 (no primeiro casal), no livro do Cântico dos Cânticos e no de Tobias (Tobias e Sara). Dentre os vários profetas – Jr 2,2; 3,1.14; 31,31-32; Ez 16,8.59-60; 23; Is 54,5-8; 62,4-5; Ml 2,14 – Oseias é o que mais exalta o matrimônio como sinal da aliança entre Deus e seu povo (cf. 1,2-3; 3,1-3; 2,16.21-22).

Em suma, tais bases alicerçam o matrimônio monogâmico e estável (cf. Catecismo da Igreja Católica n. 1601-1666).

 

Vanderlei de Lima é graduado em Filosofia (PUC-Campinas) e especialista em Teologia pela Faculdade Iguaçu-Capanema.

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