
Por: Vanderlei de Lima é eremita de Charles de Foucauld.
João Cassiano, célebre escritor das origens do monaquismo, nasceu por volta do ano 365 na atual Romênia. Deixou-nos, ao lado de suas Instituições Cenobíticas, as vinte e quatro Conferências, que são aqui apresentadas depois de um breve esboço biográfico do autor.
Natural de uma família cristã abastada, em uma região de encontro entre o Oriente e o Ocidente, nosso autor falava com fluência tanto o grego quanto o latim, embora não escrevesse com a mesma facilidade neste último idioma. Com seu amigo Germano, que sempre o acompanharia, partiu para Belém e tornou-se monge. Permaneceu ali apenas dois anos, pois, ciente da vida monástica florescente nos desertos do Egito, rumou para lá a fim de fazer uma experiência temporária entre aqueles eremitas. No entanto, essa vida o encantou de tal modo que permaneceu dez anos entre eles. Foi nesse período que, no deserto das Celas, tornou-se discípulo de Evágrio Pôntico, monge observante e abalizado escritor. No ano 400 – após algumas discórdias com Teófilo, o patriarca de Alexandria –, rumou para Constantinopla, onde foi acolhido por outro patriarca, São João Crisóstomo. Transitou ainda entre Roma e Antioquia até fixar-se, em 415, em Marselha, na Gália, local em que concluiu, no ano 435, a sua jornada terrestre (cf. Luc Brésard. A espiritualidade monástica em suas origens. Juiz de Fora: Subiaco, 2022, pp. 211-214).
A respeito das vinte e quatro Conferências elaboradas por João Cassiano, a pedido do bispo Castor, no século V, podemos dizer, com Dom Justino de Almeida Bueno, OSB, que elas são, no estilo de entrevista, um rico “itinerário espiritual desde a conversão até os cumes mais elevados da contemplação sobrenatural” (João Cassiano. Conferências 1 a 7. 2ª reimpressão. Juiz de Fora: Subiaco, 2024, p. 10 – vol. I). Dito isso, indaga-se: qual é, em suma, o conteúdo dessas Conferências – cujo título em latim soa Conlationes Patrum – recomendadas por São Bento na Regra (RB 73,5) e citadas pelo Catecismo da Igreja Católica em seu n. 2785?
Quem, uma vez mais, nos auxilia na resposta é Dom Justino. Diz, com efeito, o estudioso monge brasileiro que a primeira série de Conferências (I-X) constitui “um verdadeiro tratado de perfeição culminando com uma exposição sobre a oração. Qual é o fim da vida monástica? Como alcançar a pureza do coração? É um árduo caminho que requer discrição, indispensável para evitar todo excesso. Os três graus da renúncia, a luta constante contra as concupiscências da carne e do espírito são alguns dos temas, até chegar à oração incessante. As Conferências XI a XVII formam a segunda série dedicada a dois grandes monges de Lérins, Honorato e Euquério. No Prefácio, Cassiano manifesta seu desejo de esclarecer pontos obscuros da primeira série. A terceira série (XVII-XXIV) Cassiano dedica-a aos monges Joviano, Minérvio, Leôncio e Teodoro. São explicitados tópicos com a finalidade da vida cenobítica e da vida eremítica, a liberdade interior, as tentações da carne, entre outros” (idem, p. 11). A tradução da obra completa do latim para o português deve-se à competente latinista Aída Batista do Val e, publicada pelas Edições Subiaco, está assim dividida: Conferências 1 a 7, volume I; Conferências 8 a 15, volume II; e Conferências 16 a 24, volume III. Importa notar, por oportuno, que os volumes II e III trazem didática Apresentação de Dom Joaquim de Arruda Zamith, OSB, antigo abade presidente da Congregação Beneditina Brasileira.
Concluamos com uma citação do próprio Cassiano: “São muitos os caminhos que levam a Deus. Que cada um persevere, portanto, até o fim, nessa via em que já entrou e nela permaneça com indefectível fidelidade até alcançar a salvação” (Conferência XIV, p. 187, volume II).
Difundamos, pois, essa magnífica obra! Ela muito ajudará no progresso espiritual dos leitores.
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